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O direito de calar

Martha Medeiros

Somos todos suspeitos de ter ferido um amigo com nosso sarcasmo, de ter revelado um segredo a nós confiado e de ter falado de nossa intimidade com quem não tinha nada a ver com nossa vida.

“Você tem o direito de ficar calado, tudo o que disser poderá ser utilizado contra você”. Não é exatamente isso, mas é algo assim que os policiais dizem ao prender um suspeito, ao menos nos filmes americanos. O melhor a fazer é não dar um aí e telefonar logo para o advogado pedindo instruções.

Essa advertência é dada apenas no momento em que se está prendendo alguém, o que é uma discriminação. Nós, que em princípio não somos suspeitos de cometer crime algum, também deveríamos ser lembrados do nosso direito de ficarmos calados antes de nos pronunciar em qualquer ocasião. Eu, por exemplo, não roubo toca-fitas, não assalto supermercados, não agrido idosos, mas já cometi uma série de infrações verbais. Somos todos suspeitos de ter ferido um amigo com nosso sarcasmo, de ter revelado um segredo que nos foi confiado, de ter falado da nossa intimidade com quem não tinha nada a ver com a nossa vida. Quem mandou ser bocudo? Tudo o que foi dito num bate-papo de bar acaba ganhando status de depoimento e um dia poderá se voltar contra nós. A gente se abre e depois vem alguém e usa nossas próprias declarações para nos acusar.

Dentre os melhores inícios de livros, eu citaria a primeira e impaciente frase de Seu Rosto Amanhã, Javier Marias: “Ninguém nunca deveria contar nada, nem fornecer dados, nem veicular histórias, nem fazer com que as pessoas recordem seres que nunca existiram nem pisaram na terra ou cruzaram o mundo, ou que, sim, passaram mas já estavam meio a salvo no retorcido e inseguro esquecimento”. E o livro prossegue nesta vigorosa e apaixonante defesa do silêncio, por mais contraditório que isso seja, pois se não contássemos nada, não existiriam livros.

Palavras salvam, mas também nos deixam vulneráveis. Tudo o que falamos entre pelos ouvidos alheios e é retido numa espécie de caixa-forte que será reaberta na hora em que considerarem por bem nos culparem de alguma coisa. Lá estarão, guardadas como prova do delito, nossas inúmeras contradições, as ofensas ditas no calor de uma briga, as promessas de amor que não se cumpriram, os comentários ferinos que fizemos, as inconfidências, os vacilos, o que gaguejamos covardemente e o que enfatizamos aos gritos, nossas famas, confissões, tudo o que confiamos aos outros na esperança de não sermos traídos (e tudo o que dissemos traindo a nós mesmos), os pensamentos que já não pensamos mais, os ideais que não se sustentaram, nossos palavrões e nossas medíocres palavrinhas, poucas delas alcançando a comunicação desejada e quase nenhuma chegando perto do que somos de verdade.


Domingo, 4 de abril de 2004.



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